Conto

Os pequenos desencontros

Silveira de Souza

Nós já havíamos caminhado uma boa parte da manhã pelas largas avenidas em visita aos magazines, sentíamo-nos um tanto cansados ou zonzos devido a tantas gentilezas formais de balconistas e gerentes, sorrisos impessoais, cortesias estudadas, também a multiplicidade de vitrines ante as quais parávamos para uma escolha, assim como o cruzar de um sem número de faixas de segurança entre uma calçada e outra, no meio de uma multidão afoita e indiferente, que se afunilava das calçadas para as faixas como formigas, aproveitando o intervalo impaciente de mil, dez mil veículos prestes a avançar. Enfim, aquilo era para nós, do interior, uma “cidade grande” e tínhamos de consentir com as regras do jogo. Lena segurava a sacola de plástico atulhada de pequenos embrulhos coloridos e pintalgados de etiquetas e eu trazia sob um braço o pacote com a caixa de sapatos. Andávamos agora apressados, meio famintos, ansiosos para chegar ao hotel que ficava algumas quadras além.

Provavelmente em razão de um erro de perspectiva, esse penetrar em uma rua não muito familiar ao nosso conhecimento e que levava a outras ruas mais estranhas, começamos a sentir que estávamos a andar mais do que o necessário e não tínhamos muita certeza sobre a posição atual do nosso hotel.

— Poxa, os meus pés estão ardendo! – disse Lena e parou um pouco para descansar, largando a sacola no chão, encostada à parede.

— Olha – disse eu, tentando ser prático. — Vamos perguntar a alguém qual o rumo que a gente deve ir, tá legal?

Informaram que deveríamos seguir em frente até o final da quadra e depois descer a escadaria em forma de caracol, que levava “à parte de baixo do bairro”.

— Eu não sabia que estávamos “numa parte de cima” – disse Lena, surpreendida. Eu também me sentia confuso.

Mas, de fato, ao final de larga rua arborizada, uma escadaria de pedra em forma de espiral parecia ligar “a parte de cima” a um aglomerado de ruas que víamos em panorama, do alto, estender-se mais abaixo. Era visto apenas um lance da escadaria que, a certa distância, enroscava-se num giro em sentido contrário e para o fundo, escondendo os demais lances. Por ser uma descida abrupta, começamos a pisar cuidadosamente os degraus, Lena apoiando a mão direita no meu ombro e eu com um braço firmando-se sobre o largo corrimão de pedra, enquanto o outro braço pressionava contra o peito a caixa de sapatos.

Descíamos, lance por lance, sob um sol veemente, que apenas então começávamos a sentir na pele.

— Você bem que poderia ter lembrado de trazer o guia da cidade – disse Lena com a respiração acelerada, já um pouco nervosa e num tom de ressentimento.

— Vamos apanhar um táxi quando estivermos lá embaixo – respondi para tranquilizá-la.

Esperamos em vão durante um largo tempo, assim que atingimos a “parte de baixo”, a passagem de um táxi desocupado. Irritados, com a sensibilidade já embotada, enveredamos depois pelas ruas largas ou estreitas que se entrecruzavam, passando pelas faixas de segurança entre uma calçada e outra, em meio a uma multidão afoita e indiferente, que se afunilava das calçadas para as faixas como formigas. Lena mal podia respirar e uma rede de minúsculas gotas de suor pontilhava os nossos rostos, como cabeças de alfinetes.

— Mas que inferno! – exclamou Lena, de súbito, parando no meio da calçada.

Então, pelo faiscar raivoso de seus olhos, compreendi que afinal explodia sem remissão um tumor de mil pequenos desencontros e frustrações que vinha minando silenciosamente, com uma tenacidade sutil, o nosso relacionamento desde as últimas semanas e que teimávamos ignorar, numa resistência feita de ilusões e esperanças. Assim, Lena falou com a voz baixa, arrastada e difícil:

— É a última vez que você me conduz para um caminho errado. Faça alguma coisa antes que seja realmente o fim!

Apreensivo, quase desesperado, pedi aos que passavam informações de como chegar ao nosso destino. Até que alguém – um velhote magro, sereno, de olhar agudo e malicioso – me informou que deveríamos seguir em frente e depois descer uma escada de pedra, em forma de caracol, que nos levaria ‘à parte de baixo do bairro’.