Filme

Título: Pequenos Desencontros

Direção: Fernando Boppré

Realização: Exato Segundo Produções Artísticas

Duração: 15 minutos

Ano: 2011

Sinopse: Um filme perdido. Casal do interior perde-se em cidade grande. Ausência de comunicação, ruas entrelaçadas, falta de referências. Crise provinda da experiência urbana invade a relação do casal. Marido deve encontrar o caminho de volta, porém o máximo que consegue é se perder ainda mais. Um velho e uma loja improvável. Um filme atravessado pelo fantástico e ocupado pela confusão. Uma narrativa sobre desencontros – como quase todas as histórias.

Notas sem direção (Fernando Boppré)

Sobre o roteiro

Ao ler o conto de Silveira de Souza – ainda que hoje o filme tenha pouquíssimos elementos da história original – fiquei bastante intrigado com a história que começa com um casal perdido e termina com ele ainda mais perdido. Uma espécie de círculo, sem linha evolutiva, sem clímax, sem coisa alguma. Transpor isso para o cinema é realizar um anti-filme, se pensarmos num sentido mais tradicional do cinema narrativo, com seus pontos de virada e estrutura narrativa.

No texto original, portanto, o casal se perde cada vez mais em uma cidade. No filme, surge um enigmático personagem (o Velho, interpretado por Édio Nunes) que resolve o impasse pela via do improvável. Ele é o único que entende perfeitamente o que se passa naquela relação estabelecida entre marido e esposa, mas também de cada um deles com o mundo que os cerca. Essa resolução do Velho é um lance non-sense, uma jogada que desfaz o par e faz restar o um, espécie de morte invísivel anunciada apenas em uma breve e evasiva frase do Velho, ao final, quando estão diante da vitrine de pássaros taxidermizados. Não há qualquer aspecto passional no gesto do Velho (ele não tinha motivo algum para fazer Lena desaparecer).

Enfim: meu desejo com o filme sempre foi instaurar um momento em que o plano do real e o da fantasia se confundisse. E fazer essa cena se passar numa sala de animais taxidermizados foi fundamental (afinal, empalhar um animal morto é prometer a vida eterna a algo que não mais existe). Pequenos Desencontros é uma tentativa de sobrepor a ficção ao plano do real num lance construído pelo acaso e pelo fantástico.

Sobre a produção

Atores

O único personagem que, desde o início, possuía um ator definido, era o Velho. Édio Nunes era a pessoa ideal porque sua voz era algo assombroso para mim. O papel necessitava desse tom. Além disso, é um ator fenomenal, com larga experiência no teatro e no cinema. Havia o problema de Édio Nunes ser extremamente conhecido em Florianópolis. Eu desejava trabalhar com rostos desconhecidos. A solução foi tentar desfigurá-lo ao máximo. De partida, pensamos em raspar totalmente os cabelos e a barba dele (marcantes na personalidade de Édio). Aos poucos, decidimos apenas desfigurar seus cabelos (em forma de algodões brancos e que conferiam um certo ar angelical a ele) e deixá-lo apenas com um bigode descomunal. Essa incisão sobre a face dele foi resultado de muito diálogo com a direção de arte (Julia Amaral), maquiagem (Gabriela Jardim de Aquino) e com a preparação de atores (Mônica Siedler).

O Marido, interpretado por Nei Pelizzon, é o personagem que aos poucos foi me conquistando. Quando percebi, eu estava gostando dele de um modo especial. Isso ocorreu no momento em que ele saiu do roteiro e ganhou vida no corpo de Nei (um ator extremamente cativante, com uma queda para a comédia, com quem tive uma ótima relação durante toda a filmagem). Tivemos algumas dificuldades em encontrar um ator para o papel de Marido durante o teste de elenco. No momento em que Nei entrou na sala, parece que tudo estava resolvido. O trabalho de preparação dos atores dirigido por Mônica Siedler foi extremamente importante. Os atores descobriram as entradas para cada personagem, os pontos de encontro e desencontro entre eles bem como suas possibilidades dramáticas. Depois disso, foi realizado um trabalho de limpeza daquilo que entendíamos por excesso, sempre tendo em mente as idéias de “modelo” de Robert Bresson.

Por sua vez, Lena, a esposa, é a única personagem com nome. Ela é uma histérica clássica. A relação dela com Marido é sempre uma demanda sem fim. Ele poderia comprar a Rússia inteira para ela que, mesmo assim, não haveria contentamento ou felicidade. Eles se perdem em uma cidade grande e isso aumenta a pressão de demanda sobre ele. Luciáh Tavares foi uma grande descoberta do teste de elenco. Em um momento, sai para tomar café no lado de fora da sala onde ocorria o teste e a encontrei esperando para ser chamada. Quando vi aquele rosto, também não tive dúvidas. O problema (um bom problema) é que tínhamos ótimas opções que se destacaram nos testes (pelo menos cinco ótimas atrizes). Contudo, o desenho do rosto e a vontade de Luciáh em fazer o papel foi o maior indicio de que ela era a atriz certa.

Filmagens

O primeiro dia de filmagens foi cancelado por conta de uma chuva torrencial que caiu sobre a Grande Florianópolis. A cidade de Antônio Carlos, onde se encontravam as primeiras locações, ficou debaixo d´água. Nosso grande temor era que as chuvas se estendessem ao longo da semana. Tínhamos muitas tomadas externas. Para nossa sorte, os demais dias foram perfeitos. Muito sol e uma temperatura relativamente agradável.

A equipe foi maravilhosa. A assistência de direção, de Ricardo Weschenfelder, foi fundamental. Além da organização das ordens do dia, estabelecemos um diálogo bastante empolgante sobre o que fazíamos, o modo que operávamos, enfim, troca de idéias sobre o que importava naquele momento. A produção de Guto Lima e Ana Paula Domingues foi perfeita. Não nos faltava nada no set, incluindo as diversas locações externas. A direção de fotografia conjugada à operação de câmera de Marx Vamerlatti conseguia resolver e propor coisas em total sintonia com o que a história demandava. Cristiano Scherer e Henrique Algaverve também solucionavam as questões do áudio de maneira simples e discreta. A direção de arte de Julia Amaral propunha lances interessantíssimos para a lógica non-sense do filme. Um trabalho que trazia elementos das artes visuais, algo que sempre imaginei para o filme e que Julia Amaral, por ser artista, soube realizar com excelência. Em parceria com Gabriela Jardim de Aquino, ambas executaram toda a cenografia, maquiagem e figurinos do curta. Ana Viegas esteve junto ao processo antes e durante o filme. Na pré-produção, saímos pela cidade a fotografar possíveis locações, estudando enquadramentos e dialogando muito sobre o roteiro. Na ilha de edição, Cintia Domit Bittar compreendeu o roteiro de modo todo-próprio e impôs um ritmo interessante ao filme que se sustenta por si só, sem trilha sonora, apenas num jogo entre imagem e som.